terça-feira, 17 de março de 2015
sexta-feira, 13 de março de 2015
Em busca de um novo começo
O
filme Apocalypto (2006), lido por uma perspectiva antropológica apresenta a
tentativa de reconstrução da situação dos regimes de sociabilidade na América
pré-hispânica, como a ideia de coletivo e liderança, além dos conflitos
inter-étnicos entre diversos grupos. São representados no filme processos de
expansão, invasão, domínio, conquista, prisão e feitura de escravos de um
segmento da civilização Maia, em regime de contraste com outros clãs, hordas de
caçadores e coletores que vivem no interior da floresta.
Um
cortejo de indígenas em busca de “um novo começo” ilustra o que pode ter sido
os estímulos para as ideias de salvação e “terra sem mal” que tanto descreveu
Pierre Clastre, sobre os Mai e os karaíba, além da crítica ao “um” – ou
seja, ao Estado. A diferença de poder durante os conflitos podiam decorrer do
apuro e dominação com as ferramentas bem como as técnicas e estratégias de
combate.
As
práticas de reunião com anciãos, antepassados e seus costumes ancestrais – o
xamanismo, o totemismo e o sacrifício precedem a relação sócio-cosmológica da morte
com a floresta, além do diálogo da mitologia ameríndia com a natureza, em
especial os animais com o Jaguar, por exemplo. No momento de conflito:
desespero, outra ordem é erigida, suspensão da norma, violações éticas e morais
de um povo, violência física. A partir do contato–atrito em contraste é preciso
aprender com as crianças a refazer o caminho e reforçar a consciência das
necessidades do coletivo num regime de sobrevivência em condições adversas e
socialidades desestruturadas.
O que
nos deixa dizer, sobretudo, que ali já há história já, e se pode perceber o
discurso, a ideologia na relação entre o líder, o povo e os deuses. Do ponto de
vista anímico o Jaguar é um símbolo com eficácia simbólica bem relevante para
os processos de identificação na mediação entre o realismo objetivo da história
material e o simbolismo mítico do subjetivismo cosmológico.
“A
alma dela está a sua espera aos pés da árvore da vida”
Haviam os leprosos, os que possuíam a doença e sofriam da rejeição coletiva, do
isolamento e ao ostracismo. O medo, a hora sagrada, da escuridão do dia, que põe
fim do céu e faz desaparecer a Terra e leva o fim ao mundo ameríndio. A
profecia cumpre a função discursiva, narrativa dos jogos de poder através de
uma semiologia entre representações e rituais.
A
criação do mito se faz a partir da invenção e de comunhão entre homem e
natureza numa temporalidade marcada pela diferenciação espacial/geográfica,
como se pode observar na construção da naturalização da sociedade. Fica-nos a
pergunta: “O que são eles?” e uma primeira resposta nos traz o filme: “eles
trazem homens”.
–
Mas se a sociedade não existe e é apenas uma abstração, o que é a
civilização? – Bandeiras,
barcos, tecnologias, cruz, espada, deus? Ou vingança?
quinta-feira, 12 de março de 2015
The voice of shaman, The New York Review Books. Tradução (1ª parte)
![]() |
| Desabamento do Céu, Claudia Andujar entre os Yanomami. |
***
A voz do xamã¹
A queda do céu (The falling sky), livro escrito pelo xamã yanomami Davi
Kopenawa e o antropólogo francês Bruce Albert, tomou este título de um mito de
criação dos yanomami que vivem na fronteira entre o Brasil e a Venezuela. O
mundo primordial foi esmagado por um colapso do céu, lançando com forças estes
habitantes para o submundo. A volta do céu anterior transformou a floresta onde
ressurgiu o povo yanomami, e onde continua nos dias de hoje. Ele ainda liga a
floresta “ao velho céu”. O novo céu foi erguido, realizado no lugar por
fundações de metais profundamente colocadas na terra pelo demiurgo Omana
(entidade anímica).Ainda o novo céu está sob constantes ataques pelas forças do
caos e o incansável trabalho dos xamãs yanomami com os espíritos aliados, os
xapiri, para evitar um novo apocalipse. Um terceiro céu diáfano já espera, no
alto, no caso de ocorrer um colapso e o mundo mais uma vez venha a ter um fim.
Em números de aproximadamente de 33.000, os yanomami estão
em uma das maiores sociedades indígenas da Amazônia, ocupando um vasto território
concentrado na montanha Parima dividindo a Amazônia a partir da bacia de
Orinoco. Isolados até o início do século 20, os primeiros contatos regulares
com missionários e agentes do governo brasileiro começam entre 1940 e 1960.
Estas relações quebraram-se quando ferramentas de metal e outros comércios
desejados como bom se dão, bem como uma fatal doença epidêmica.
Nos anos de 1970, o governo brasileiro começa cortando a
perna norte da Transamazônica, causando desflorestamento e novo distúrbio para
a vida yanomami. A transamazônica e sua construção foi abandonada depois de
vários anos, mas uma enorme corrida do ouro nos meados de 1980 infligiu
tremendo sofrimento e devastação ecológica. Em 1992, campanhas internacionais
através de antropólogos e indígenas e organizações não governamentais
resultaram na demarcação de um território contiguo para os yanomami totalizando
192,000 km²(tão grande quanto a Florida) compartilhado entre o Brasil e a
Venezuela. Ambos autores deste livro, Kopenawa como porta-voz internacional
yanomami e Bruce Albert como cofundador da ONG CCPY (Comissão Pro-Yanomami),
foram figuras centrais nesta importante vitória, e ambos permanecem atuando em
uma luta contínua contra a mineração e outras ameaças.
A queda do céu é várias coisas. É a autobiografia de Davi
Kopenawa, um dos mais proeminentes e eloquentes líderes indígenas brasileiros.
É a mais vívida e autêntica descrição do xamanismo filosófico (filosofia
xamânica) que eu já li. É também um apaixonado apelo pelos direitos dos povos indígenas
e uma mordaz condenação do perigo forjado por missionários, mineradores de ouro
e a ganancia dos homens brancos (nhabebe). As notas de rodapé sozinhas abrigam
monografias sobre a botânica e a zoologia, mitologia, ritual e história
yanomami.
(...)
To be continued
[1] O xamã Davi Kopenawa da aldeia Yanomami de Demini, resolveu no final dos anos 70 se aproximar da FUNAI ocupando um posto avançado num quartel para o abandono do projeto da estrada Perimetral Norte, através do território Yanomami, no estado de Roraima, Brasil, em abril de 2014; fotografias por Sebastião Salgado: Genesis está no International Center of Photography, New York, até 11 de janeiro de 2015. O Catalogo é editado por Leila Wanick Salgado e publicado por Taschen.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
IDENTIDADE, PERTENCIMENTO E EMPODERAMENTO: A FACE POLÍTICA DO CONFLITO CULTURAL.
Aspectos como
território e patrimônio histórico são elementos definidores de uma cultura em
qualquer sociedade. O homem é o universo em que vive e assim toda cultura
quando em efetivação de suas potencias compõem a sociedade na qual está
contida.
As remoções das
comunidades indígenas ou quilombolas, a violência e extermínio de determinados
grupos étnicos dessas comunidades revela o sinal de uma consciência política
por meio da dimensão territorial. A liberdade, a honra e a paz para esse povos
só se dá através da luta, da negociação ou do conflito com a ordem hegemônica
representado pelo Estado e o Mercado, na maioria das vezes. Nesse contexto, a
Cultura desses povos como expressão de sua identidade, é também por sua vez um
instrumento de luta na construção desse processo social de enfrentamento,
resistência e emancipação social.
O Brasil esse país
difuso é resultado de circunstâncias históricas bem complexas, que por razões óbvias,
não posso reduzi-las aqui, mas importa dizer que essa formação histórica e
social tão conturbada começa a encontrar seus pontos radicais no esquema sociológico de suas contradições. As
apropriações e inserções ambíguas e por vezes operadas entre o eu (ameríndio) e
os outros (europeus e africanos) gerou no sistema social do país formas de
classificação e hierarquias contraditórias. A não mediação e a adulteração de
regras de sociabilidade destes grupos gerou desigualdades de poder na medida em
que a diversidade cultural só se intensificou ao passar do tempo.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
O sociólogo e a "solidão do porco espinho" – A hermeneutica do autor.
A Sociologia é uma
ciência incompleta, uma atividade provisória. Através da recolha de
epistemologias dispersas e métodos múltiplos, o sociólogo empreende uma ação
intelectual de montador e ao mesmo tempo arquiteto das estruturas sociais com a
digna sensibilidade de um organizador dos fenômenos sociais.
A capacidade de
articular uma redação da realidade é crucial para apresentar, não raro, uma
visão que tende a totalidade ainda que na dimensão objetiva do texto
constata-se, por vezes, parcial e insuficiente para comportar as contingências
do mundo social. O que faz da obra sociológica um trabalho intelectual, por
excelência, e como tal aberto a interpretações denotando assim o poder da
autoridade do autor, ou seja, do sociólogo. Uma dicção por vezes fragmentada, o
uso de construções por vezes repetitivas, a retomada de certos temas são mostra
de como aparecem as contradições inerentes ao pensamento social.
A busca por uma análise
integral da sociedade assombra a maior parte dos intelectuais, e não apenas sociólogos,
os quais esbarram na estratégia da analise diferencial ou comparada, seja por
termos ou temas, campos de estudo ou área de conhecimento. Ao passo que a
permanência de aspectos sociais fundantes da era moderna, principalmente do
pós-século 19, acompanham boa parte destes estudos e reflexões que se preocupam
com as mudanças operadas com a soberania da racionalidade – instrumental e administrativa
– e da técnica no mundo que vivemos.
Interessa-me o debate
que recai sobre as intenções do sociólogo enquanto um autor. A experiência
territorial em uma nova localidade, a influência de outros intelectuais e suas
obras sobre seu próprio pensamento influenciam assim no tratamento da
problemática em desenvolvimento. Considero o exílio como ponto importante e
diferencial na produção do conhecimento sociológico, juntamente com as
bibliografias e a biblioteca enquanto arsenal, mas que ao mesmo tempo não
esgotam a atividade empírica.
Nesse sentido,
pensando a sociologia contemporânea enquanto “contracultura da modernidade”,
não se pode negar um caráter duplex na atividade intelectual sociológica. O
sociólogo, ao viver o estado da solidão do porco espinho, exige a emergência de
uma epistemologia dos pontos de vista, uma certa espécie de perspectivismo[1].
A lógica posta, a partir do princípio da identidade de Parmênides – o ser é, o
não ser não é – orienta as relações sociais fundamentadas na modernidade: ou
seja, o ser – conhecer – que sustenta-se na ontologia do reconhecimento, como
posto por Charles Taylor, indica um caminho em direção a uma epistemologia que leve em conta a
universalidade, apresentando assim uma das senão a maior das antinomias da
Modernidade onde a experiência social necessita de uma perspectiva relacional,
como pode ser observada nas questões que envolvem o tema da identidade
multicultural.
Paul Gilroy, ao
investigar os desdobramentos da diáspora via Atlântico negro, aponta fenômenos
como desterritorialização, desenraizamento, multiterritorialidade. Daí surgem
questões como: o hibridismo e a circularidade. Além da diversidade cultural, da
desigualdade de poder entre os grupos sociais etnicamente distintos, o recrudescimento
de problemas sociais específicos como estes são resultado do enfrentamento
(imposição) de um ponto de vista oficial, do colonizador ou
hegemônico/dominante frente ao ponto de vista do colonizado ou
outsider/marginal. Logo, a configuração do imaginário sociológico contemporâneo
não pode prescindir da constatação de que a barbárie está contida na
civilização.
Assim, no exercício
sociológico de leitura, construção e interpretação das vanguardas anímicas da cultura negra no Nordeste brasileiro, as relações
entre a cidadania, cultura e as formas sócio-culturais do maracatu nação e do
samba de roda do recôncavo baiano se articulam em torno de uma tensa atividade
empírica que permite a emergência de uma narrativa teórica e metodologicamente
orientada pelo princípio de uma voz a um só tempo xamanica e científica,
crítica e oracular.
A noção de vanguarda
aparece aqui diretamente ligada ao sentido de contra-hegemonia política e
ideológica ao sistema capitalista; as forças sociais mobilizadas por estas
manifestações culturais evocam um poder ancestral e mítico, ao mesmo tempo em
que provocam uma série de questionamentos a ordem dominante seja no plano
econômico, artístico ou social.
As conexões entre a
história do maracatu e do samba de roda são estabelecidas com base em noções
como a de patrimônio cultural, que entre outras, colaboram para o debate entre
conceitos e categorias de distinção entre a dita cultura popular e seu reconhecimento. Com vistas a uma visão
crítica da antropologia, Adam Kuper sugere novas interpretações sobre o debate
multiculturalista juntamente com os avanços na teoria social desenvolvidos na
Escola de Birmingham de Estudos Culturais.
A música, enquanto
elemento artístico oferece uma paisagem estética na qual se pode observar a
emancipação de discursos como a liberdade, a descrição do mundo do trabalho, as
formas da linguagem destes grupos sociais em análise, bem como identificar
questões sociais como o tema da raça e do racismo, num atrelamento entre forma
e conteúdo da arte, sempre tão complexa, em diálogo com seu público sempre tão
heteróclito.
De tal maneira, assim
apresentada a elaboração que se constrói, que a sociologia em face de suas
transformações é chamada a redefinição dos pontos chave para a montagem e
compreensão da agenda da modernidade. As novas formas de fazer ciências sociais
advindas do impacto causado no campo, pelos Estudos Culturais, são sinais, na
era moderna, da percuciência da radicalização das contradições sociais, ou
seja, de suas próprias contradições.
Com isso é preciso,
antes de apresentar uma visão em ciências sociais, considerar que o fazer
sociológico foi influenciado pelo impacto que teve a escola de Birmingham no
ramo dos estudos da cultura. O que quer dizer que no entendimento do pensamento
social se realiza dentro de certos cursos ou programas e orientações de ordens
ideológicas, com o aprofundamento da decadência da modernidade surgiram no seio
de alguns institutos certa resistência a alguns movimentos de projetos
intelectuais pós-1960.
Um profundo esforço para
a desconstrução das contradições sociais do presente moderno e para rupturas
com as tradições intelectuais encaminharam as Ciências Sociais e as Letras, em
especial a Crítica Literária, para um novo conjunto de práticas hermenêuticas
capaz de atribuir outros sentidos e significados a velhas teorias.
E reinterpretar a luz de novas questões os
persistentes problemas da sociedade moderna marcada pela diversidade cultural e
desigualdade das relações de poder entre os diversos grupos étnicos e sociais
que compõem as estruturas sociais e se emancipam no panorama sócio-histórico a
partir do maio de 68, principalmente, os negros, os gays e as mulheres.
Nesse contexto,
categorias como raça ou gênero ganharam destaque e relevância para o trabalho
intelectual como chaves de sentido para interpretar situações sociais
problemáticas ou em crise. É claro que, enquanto isso acontecia, na sociologia,
muitos pensadores produziram obras vultuosas nesse período que visavam,
enquanto proposta intelectual, a síntese dos Clássicos. Ao passo que outros se
posicionavam bem a direita ou bem a esquerda nos debates políticos acadêmicos
(enquanto essas noções representavam alguma coisa no mundo crítico)[2].
Só que outros diferentemente destes, optaram pela ruptura com a reprodução,
colocando frente a esta tradição erigida com a ideologia da modernidade o
pensamento social que buscou colaborar com a constituição do entendimento desta
era conhecida como “trágica”.
É possível que seja
ainda mesmo hoje temerário apontar que essa sociologia da síntese, que encontra
seu melhor expediente nos trabalhos realizados por Pierre Bourdieu, não passava
de uma boa reciclagem ou releituras sofisticadas que por aplicação teórica ou
alguma espécie de rigor ao método empregado permitiu uma particular fidelidade
epistemológica a algumas das correntes de pensamento que as antecedem.
Nesse momento quero
anotar que, a reflexividade, dada como característica intrínseca da
Modernidade, por autores como Antony Giddens, pode ser exemplificada sob a
forma da estratégia interpretativa da hermenêutica. Recuperando a noção de
“excesso de significação” de Paul Ricouer, pode-se dizer que na sociologia
contemporânea há um traço ou um suporte de elementos caros a fundação das
ciências sociais, em especial, como na noção de “fato social total”, que remete
ao conceito de “fato social” de Emile Durkheim, bem como outros exemplos. A
teoria social contemporânea é uma co-extensão da sociologia moderna, vista em
nossa óptica enquanto uma tradição.
Logo, a noção de
originalidade na linguagem sociológica é necessária neste instante histórico
para a consideração da questão da autoria e da criação da escritura-científica,
onde o moderno precede ao contemporâneo em formas metodológicas e
epistemológicas, distinguindo-se em elementos peculiares quanto a teorias e
objetos bem como na abordagem para tratá-los.
Concebo ser
necessária o desenvolvimento de uma filologia
do mundo social, ou seja, uma filologia sociológica, para que se possa
observar com acuidade o jogo ente conserva e decadência da modernidade e com se
dá a aplicação e aproximação de conceitos e categorias aos quais são atribuídos
novos usos(aplicações) bem como sentidos (significados) além de levar em conta
estes processos de desenho de uma gramática e semântica dos conceitos como instrumento
para identificar o continnun entre:
Modernidade, Tradição Sociológica, Sociologia Moderna e Contemporânea.
[1]
Ver a aplicação desta inversão de ponto de vista da lógica ocidental para o
ponto de vista dos nativos da América amazônica operada pelo antropólogo
brasileiro Eduardo Viveiro de Castro. (2013)
[2] Durante a Guerra Fria, ser ou não ser a favor da guerra noVietnã, ser comunista ou
capitalista, por exemplo.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Leitura, pesquisa e escrita: Tradução, crítica e criação.
Não duvido, que de toda sorte, as crises encontram seus
profetas. Com o temperamento intelectual que oscila entre escolas de pensamento,
essas famílias espirituais, e as formas de um estilo que possa conjurar
maturidade do juízo e sólido conhecimento, dribla-se o vazio dos discursos ou o
disfarce da consciência. As habilidades do pensamento para os estudos de línguas
e da literatura devem ser evocadas: a leitura (e principalmente a re-leitura)
quando houver competência, deve-se o leitor aventurar-se à via da tradução, num
misto de técnica, pesquisa e crítica, capaz de alcançar-se uma escrita em
estado de criação artística e estética.
No entanto, longe do exibicionismo literário e ainda mais
distante dos formalismos puristas e verbalismos estéreis, procura-se evitar
aqui os automatismos que deixam os cérebros de molho dispensando o pensar. Em
certos momentos da vida acadêmica, passando os primeiros anos de educação
universitária é preciso uma “tomada de posição” estética, bem como ler uma obra
em outro idioma é escrevê-la novamente. É nessa filosofia da consciência que se
faz eclodir um ser dentro do outro, que se manifesta um novo cogito, que não
possui limites, a não ser os que estabelece para si mesmo.
Como passaporte entre a estética e a sociedade, a obra de
arte, vocifera ao povo, embrutecido pelas atividades produtivas, seu conteúdo intelectual
e na sensibilidade artística expressa no símbolo seja o poema, a gravura ou a
canção. A constância do trabalho da inteligência moderado pelo esforço da
seriedade da paciência, conduzindo uma atividade acercada de sacrifício e
renuncia, alcança uma economia dos sentidos na qual a transfiguração do
pensamento é de tal maneira, que distinto de um esoterismo e um personalismo,
permite a invenção de por um lado, uma cultura filosófica da arte, e por outro,
uma ciência que encontre seu lugar no mundo das artes de acordo com as
tradições de pensamento.
O deciframento que nos permite o exercício da tradução opera
em tal nível de significação que essa decodificação simbólica permite uma
reinvenção no plano da linguagem sociológica no atuar no campo artístico, partindo
primeiramente da elasticidade das categorias para ao longe da ilusão conceitual
que ordena as análises dos símbolos e signos poéticos e literários de então.
A estética, num sentido posto entre a linguagem e a função,
se consolida numa questão de crítica do valor ou da obra, onde a imagem poética
essa insígnia da ideia, esse rebento da criação difere-se em tudo do esnobismo metafórico
e caracteriza-se na mais fina descrição da elegância. Esse refinamento conduz o
crítico entre os juízos comuns e a mais sofisticada distinção, que busca pela
particularidade da diferença, ou seja, pela peculiaridade e não pela imitação o
reconhecimento de uma arte francamente de bom tom.
Essa “ratio”, que
se aproxima da revelação através de um anuncio de possíveis discursos e suas
origens intermediam a interpretação. A força intelectual empregada opera um
jogo entre tradições, ideologias e contra-ideologias, bem como entre a cultura,
a sabedoria e uma consciência da mudança e do valor de renovação das rupturas
frente às conservações e regularidades.
A crítica se rebela ante a domesticação da linguagem. Também
as formas dogmáticas do conhecimento literário como os manuais e outros, sofrem
com a contracultura operada pela crítica para a renovação dos sentidos. Ao
mesmo tempo, que a tradução por sua vez realiza uma ação (re)criadora e de
decodificação cultural. Esse deciframento do espírito assegura a liberdade da experiência.
domingo, 30 de novembro de 2014
A teoria entre a barbárie e o esclarecimento
Refletindo
sobre as perspectivas da Teoria Crítica, a racionalidade instrumental e a
reprodução simbólica surgem como pontos chave para o entendimento e compreensão
desta corrente de pensamento social. A Teoria Crítica Clássica que se constitui
em Adorno e Horkheimer nos seus primeiros escritos transforma-se com Habermas
na sua face reflexiva alcançada na Teoria da Ação Comunicativa, desdobrando-se
na Teoria do Reconhecimento, desenvolvida por Axel Honneth.
As
formas da técnica e da Ciência, tomadas enquanto ideologia, como posto por
Habermas, complementa os pressupostos da teoria da racionalidade instrumental.
O percurso da escola de pensamento alemão opera uma reescritura da dialética
num movimento analítico. Observando esse reservatório crítico que é a T. C. os
estudos dos frankfurtianos apresentam uma visão alternativa à colonização, numa
dimensão crítica.
O
esclarecimento de um sistema social marcado pela racionalidade instrumental
posto em cheque pela “ação comunicativa”, ou seja, ações políticas no âmbito
dos estados democráticos, que permitem a interação entre o “mundo da vida” e o
mundo colonizado do sistema burguês marcado pela alienação. Na lógica das ciências sociais, a teoria
organiza a crítica e o interesse, como apontou Habermas no universo da
democracia e do direito, assim sociedade civil e política desdobram-se numa
mudança estrutural da esfera pública onde emancipação e revolução condicionam a
abolição das relações capitalistas.
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